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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Produtores Musicais


Está fresquinho. Acaba de sair a revista da Livraria Cultura de fevereiro, número 55, com a matéria de capa feita por mim - que orgulho - sobre produtores musicais. Nela eu conto sobre o papel do produtor, como é a relação com o artista e os resultados dessas parcerias auditivas.

Meu texto, "Canalizador da Genialidade", conta com as ótimas ilustrações do Fido Nesti, dando uma grande cara para a matéria. O legal é que também saiu uma foto que fiz do Chuck Hipolitho - também com créditos - quando fui entrevistá-lo no Estúdio Costella.

Por falar no Chuck, a matéria tem gente bem bacana falando: o próprio Chuck, Daniel do NX Zero, os produtores Daniel Ganjaman, Carlos Eduardo Miranda, Rick Bonadio, Anderson Noise, Gil Assis e Rodrigo Faour.

Vou parar de falar, porque o mais legal é ler a matéria. Você pode pegar um exemplar em qualquer Livraria Cultura ou ler pelo link: http://www.revistadacultura.com.br:8090/revista/rc55/index2.asp?page=capa

Assim que possível coloco o PDF aqui.

E como fiz muitas entrevistas, não teve como colocar falas de todos - teve gente que até ficou de fora -, por isso nos próximos dias vou colocar aqui as entrevistas completas de todo mundo. Ficou show.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Ás de Copas


O calor está infernal. Os corpos tomados pelo suor são envolvidos numa atmosfera de excitação, resultado da união de batidas frenéticas extremamente dançantes e os jogos de luzes. Mesmo assim, o público parece não estar nem próximo de se cansar, e muito menos perder a animação, quando a vocalista Cacá V e o guitarrista Alec Ventura começam a cantar energicamente os primeiros versos de “King Of The Night”. A platéia estupefata dá início às palmas e uma cantoria uníssona quase gritada, deixando no ar uma química contagiante.

“Looks like he wanna be the king of the night...”, nesse exato momento dá-se uma pequena pausa. Cacá salta em meio à multidão, que de meros dançarinos pseudo-cantores passam a coadjuvantes da festa, e a banda parte para o refrão como um golpe sonoro. O público explode num frenesi dançante ao redor da vocalista, suas três borboletas coloridas tatuadas no braço esquerdo multiplicam e misturam-se ao movimento elétrico de todos que estão na pista. “É isso a balada do Copacabana Club”, brinca Cacá.

O que antes seria apenas uma banda entre amigos por pura diversão, agora concretiza-se como assunto sério com o lançamento do primeiro disco. Em menos de quatro anos, os curitibanos do Copacabana Club tornaram-se uma das grandes promessas da música nacional, posição conquistada por um “boom” acidental, surpreendendo tanto seus integrantes quanto a mídia especializada. “Quando a gente começou, eu mal sabia cantar e tocar qualquer instrumento”, conta Cacá V, a carismática vocalista do quinteto, “Nunca tive uma banda antes. O Copa foi um projeto pra gente se divertir e ser mais um tipo de escape, um hobby”, completa.

Hobby que não poderia ser mais dançante. Batido em liquidificador, a banda faz um rock alternativo de mistura saborosa e bem energética, reflexo do gosto musical democrático de seus integrantes: vai de Beatles a Primal Scream, passando de Stevie Wonder para Stereolabs e LCD Soundsystem, acrescentando também um toque de brasilidade dos anos 70, como Jorge Ben. “Cada um tem suas influências e gosta de um tipo de som, e no final dá uma soma bem legal”, comenta Cacá. Com tanta sonoridade, classificar o Copacabana Club não é tarefa fácil; tanto que colocá-los como rock alternativo é uma das possíveis soluções, como para com tantas outras bandas.

Em meados dos anos 1980, o rock alternativo tornou-se uma saída simples para enquadrar bandas independentes influenciadas pelo punk rock e os sons que se desenvolveram depois, como o pós-punk e o new wave. A cena pertencia aos pequenos clubes, com aparições mais modestas, uma ou outra música alcançando o ponto mais alto das paradas e ocasionalmente recebendo críticas em publicações mais influentes. Hoje a história muda, mas nem tanto: grande parte das bandas independentes continua nos pequenos bares, os selos independentes ainda estão por aí, algumas bandas dão mais sorte que outras, mas a visibilidade e o hype aumentaram consideravelmente com a internet e as redes sociais, como o MySpace.

Dos anos 1990 aos 2000 mais bandas começaram a ganhar reconhecimento, como Radiohead, The Strokes, The Killers, The White Stripes e Yeah Yeah Yeahs. Sons que de uns anos para cá tomam as pistas das baladas alternativas, muito conhecidas pela Rua Augusta, em São Paulo, que também serve de celeiro para novas bandas, mesmo com influências e sonoridades, às vezes, completamente distintas. “Ter uma banda que todo mundo conhece e se estabelecer nesse espaço é mais difícil, porque é tanta gente, tanta banda legal, tanta coisa acontecendo que você tem que ser mais que genial para ficar nesse lugar”, analisa Cacá, considerando-se ainda uma novata na área com seus três anos de estrada.

Em 2007, após voltar de uma temporada de cinco anos em Londres, o vocalista e guitarrista Alessandro Oliveira – Alec Ventura – encontrou num bar o também guitarrista Luciano Frank, antigo companheiro de banda. Desse encontro informal, os dois decidiram montar uma nova banda juntos, e logo de cara convidaram a baterista Cláudia Bukowski, que já havia tocado com Luciano em outra banda. A vocalista Camila Cornelsen – Cacá V - estava ao lado durante o convite, entretanto com ela foi um pouco diferente. “Eu acabei me convidando para entrar no Copacabana”, relembra Cacá, que completa em tom repressor: “Eu não admitia que eles ficassem falando de montar uma banda sem mim” e cai na risada. Em junho de 2007, dois meses depois dos convites boêmios e alguns ensaios, foi a vez de Tile Douglas assumir os baixos, completando a sonoridade do Copacabana Club. Em pouco tempo a banda já contava com quatro faixas para o lançamento do EP “King Of The Night”, de 2008.

De lá para cá o caminho foi de ascensão: capa do caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo, vencedores do projeto Levi's Music 2009, apareceram em vinhetas da MTV e indicação para no VMB 2009, principal premiação da MTV brasileira; esse ano fizeram uma pequena turnê pelos Estados Unidos e agora disputam o Prêmio Multishow. Tudo isso conquistado apenas com um EP, crescente número de visualizações no MySpace e o clipe de “Just Do It”. Quando pergunto da rápida repercussão da banda, Cacá responde enfática: “A gente não esperava. Eu não imaginava que em tão pouco tempo a banda tomasse tanto tempo da minha vida”.

Mesmo com o repentino sucesso, os Copas não viviam completamente da música. “Todo mundo tem alguma coisa para fazer, sabe?” comenta Cacá que trabalha com fotografia, e considerava a carreira na música antes como um plano C. Há pouco tempo, Tile teve que optar entre o emprego fixo em Curitiba e a banda, devido à dificuldade de conciliação; diferente do novo guitarrista Rafael Martins, jornalista e com horários mais flexíveis que os demais integrantes. “Ainda não conseguimos nos desprender tanto porque não ganhamos o suficiente”, explica.

E foi graças à soma dos empregos e das apresentações pelo Brasil que o Copacabana foi capaz de fazer sua primeira turnê internacional, com passagem por Nova York, Boston, Filadélfia e também pelo renomado festival independente South By Southwest, em Austin, Texas: “Como é independente, eles não te pagam nada. E a gente já tinha decidido que iríamos de qualquer maneira, então juntamos nossos cachês e economias”, conta Cacá. Dessa oportunidade, a banda conseguiu mostrar o que trazem de melhor: a energia do vivo, também servindo de termômetro para as músicas. “Foi como se a gente tivesse que tocar todas as nossas músicas do zero”, relembra, “Lá ninguém conhecia nada, então foi bom para gente testar algumas músicas que já tínhamos feito”, completa a vocalista.

No embalo da turnê e aproveitando o amadurecimento das músicas, os Copas finalmente lançaram seu disco de estreia, o aguardado Tropical Splash. Ao perceber a força do ao vivo, o desafio foi transmitir essa energia e descontração dos palcos para o estúdio. “Por mais que seja legal ao vivo, às vezes é difícil fazer isso sem soar estranho ou cafona”, garante Cacá, e acrescenta: “temos conseguido explorar de uma maneira legal essa nossa força dos palcos”. Depois de um ano e três meses de gravação e produção, a banda não via a hora de ter o produto final em mãos e ouvidos, independentemente do formato. “Seja da forma que for: digital, físico, gravadora, independente, nossa ideia era apenas lançar”, afirma a vocalista, que continua com uma autocobrança: “Já estava mais que na hora de lançar um disco”. Ao ser questionada sobre o momento que vive no Copacabana Club, Cacá demonstra-se realmente satisfeita ao repensar sua vida. “De certa forma eu sempre tive vontade de fazer música, só não sabia como. De repente o Copa foi a oportunidade perfeita para isso.”



Texto publicado no Vitroleiros

Raspa a franja e deixa a barba


Com o lançamento do novo disco da Fresno, Revanche, e o sucesso de um de seus projetos, o Beeshop, o vocalista Lucas Silveira se vê no momento mais maduro da carreira. “Dá mais vontade de trabalhar e fazer acontecer.”

Lucas Silveira é pontual ao falar de “Revanche”, o mais recente álbum da Fresno: “O novo disco deve surpreender os mais desavisados”. Após 10 anos de estrada, cincos discos de estúdio e diversos prêmios, a revanche do quarteto gaúcho marca uma nova fase. “Estamos em outro momento das nossas carreiras. Julgamos necessário arriscar mais, e as músicas saíram naturalmente diferentes de tudo que a gente já fez”, explica Lucas.

Agora com o nome consolidado entre os fãs e no cenário nacional, a banda larga a sonoridade extremamente pop de Redenção, 2008, e segue por um caminho mais pesado, dando espaço para riffs de guitarra mais trabalhados. Em “Deixa o Tempo”, primeiro single do novo disco que já tem cara de hit, transparece um clima mais “sombrio”, juntamente com o amadurecimento musical dos integrantes. A introspecção e auto-análise parecem maiores que nunca em suas roupas pretas e jaquetas de couro.

“Acho que agora as pessoas conhecem meu outro lado como músico, compositor e também produtor”, analisa Lucas ao fazer o balanço do espaço conquistado nesses anos. Através dessa oportunidade que um dos alteregos do vocalista ganhou forma e disco, o “The Rise and Fall of Beeshop”. Compondo e gravando grande parte do eclético material da Beeshop, Lucas explica seu Frankstein privado: “Tudo partiu de devaneios que venho registrando ao longo dos últimos cinco anos. É uma produção chefiada por mim”.

As influências de bandas norte-americanas e o gosto pessoal na composição são evidentes. A sonoridade transita do tradicional rock jovem de Copeland e Dashboard Confessional ao jazz das big bands de grandes cantores como Frank Sinatra e do rock clássico dos Beatles. “O que as músicas pediam, eu colocava. Por isso é que o disco tem uma sonoridade tão ampla e as músicas são tão diferentes entre si”, explica.

Impressionando a crítica e garantindo um novo sucesso, o músico começa a ser enxergado com maior seriedade que antigamente, quando era considerado apenas mais um vocalista de banda adolescente. “Estou muito feliz com a recepção do disco, especialmente entre as pessoas que não ouvem ou não gostam de Fresno. Isso mostra que a minha intenção de fazer algo diferente realmente surtiu um efeito”, reflete Lucas, que não se sente nenhum pouco intimidado com o futuro. “É excitante não saber como vai ser. Dá mais vontade de trabalhar e de fazer acontecer”, completa.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Na espera de Cook

David Cook liberou por enquanto um pequeno vídeo das gravações do seu novo disco, ainda sem nome. Esses 45 segundos serviram apenas para atiçar ainda mais minha vontade de ter logo esse disco em mãos e ouvidos.

A grande novidade mesmo é ver que parece estar ficando bom, espero que seja realmente de grande qualidade. Seria ótimo se tivessem músicas mais pesadas como nos trabalhos pré-Idol, afinal, qualidade sempre terá.

Segue o vídeo que me deixou doido:

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Loki!


Não é todo dia que somos surpreendidos com uma grande história de vida. Sabemos que por esse Brasil multicultural, de vastas terras e pluralidades pode ser fácil encontrar grandes personagens nos menores e mais desconhecidos frascos. Em "Loki", dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, encontramos um frasco dos grandes: profundo, de perfume mutante, ácido e sutil em seu auge, passando por momentos de renascimento que o levam a ser o mais doce e inocente possível. Falamos aqui de Arnaldo Baptista, o mutante d’Os Mutantes; Loki, o deus mais travesso da mitologia nórdica, com o poder de assumir as mais diversas formas, e também considerado o mais complexo entre as demais divindades.

Levei um ano para assistir as duas horas que mais foram aproveitadas em frente ao aparelho de televisão. Quando notei que "Loki" iria passar na TV Cultura tarde da noite de sábado para domingo, não titubeei: coloquei alarme, fiz meus pais prometerem de pés juntos que não me fariam esquecer, avisei até vizinho da programação; não poderia perder; já havia enrolado demais. O documentário foi muito elogiado, tantas pessoas não poderiam estar erradas. Às 23h chegou a minha vez em dar opinião: pela uma hora da manhã fiquei convencido, aquelas pessoas estavam com a razão.

Somos levados numa viagem entre as pinturas, tintas e pincéis, imagens históricas e muitos depoimentos de pessoas próximas a Arnaldo – são músicos, produtores, familiares e acima de tudo amigos. Fontenelle mistura a história do criador dos Mutantes com muita música, imagens pessoais e de arquivo televisivo, relatos do próprio músico, como também filmagens de alguns de seus quadros, todos produzidos na casa em que vive em Juiz de Fora (MG). Vamos da infância até o retorno d’Os Mutantes que não são tão Mutantes, dos amigos e admiradores próximos aos mais distantes – como Kurt Cobain e Sean Lennon, filho do ex-Beatle – e sem esquecer dos amores. Infelizmente não vemos depoimentos de Rita Lee, o primeiro e, talvez, maior da vida de Arnaldo.

Não poderia faltar Arnaldo, Sérgio e Rita no III Festival de Música Popular Brasileira, em 1967, quando Gilberto Gil apresentou acompanhado d’Os Mutantes a música “Domingo no Parque”, que conquistaria o segundo lugar do festival. “Imagina a gente entrando sem o Gilberto Gil num dia de bossa nova com Elis. Não dava certo”, e Arnaldo estava certo: essa apresentação foi um marco, um começo na carreira de um músico exemplar com seus altos e baixos, acompanhado de seu irmão e Rita.

“O que será que me impulsiona na vida? O que me leva a fazer isso? É difícil. Deve ser descobrimento e exploração.” É interessante também notar que o documentário não fica extremamente preso aos Mutantes, ele também dá importância aos diversos depoimentos de Arnaldo sobre outros assuntos, como quando ouviu pela primeira vez rock n’ roll ao andar numa roda gigante, ou, inclusive, a questões que ele mesmo abre sobre sua vida. “Maiores Alegrias? São as etapas vencidas.” Etapas que vão desde seu amor pela música até o contato com as drogas e a autodestruição. Nos anos 70 a droga da época era o ácido e evidentemente com o sucesso d’Os Mutantes, acompanhado das idas e vindas a Europa, a descoberta era inevitável. Desse contato, o mais afetado foi Arnaldo, modificando sua música e também seu comportamento.

Ele é visto em sua forma humana, muito além de seu personagem Mutante músico que virou uma lenda nacional e internacional. Tom Zé analisa Arnaldo de uma forma que jamais havia visto – fazendo com que seja um dos depoimentos mais interessantes, além de me fazer arrepiar os pelos dos braços. “As pessoas não procuram ficar perto dele. Parece que tem medo. Realmente, a sabedoria mete medo. Eu não to falando da sabedoria no sentido universitário, talvez nem no sentido da ciência desenvolvida. To falando de um tipo de conhecimento muito concentrado dessa vida tão profícua, do grande mistério que ele viveu.”

Rogério Duprat vai além e comenta que a história do Brasil pós-67 era de Arnaldo, da mesma maneira que os Mutantes trouxeram um frescor aos tempos de ditadura militar. Os Mutantes fizeram história na história, assim como "Loki" é mais profundo que uma cinebiografia. É a história do Brasil contada através da música e vida de um personagem complexo e incompreendido. Jamais pensaria que esse tipo de filme biografia poderia prender tanto a atenção ao ponto de querer saber mais logo após chegar aos créditos. E olha que esse é apenas o primeiro longa-metragem de Paulo Henrique Fontenelle. Começou bem, soube contar uma boa história.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Celebrando a alegria


Em Piquenique, Ed Motta faz seu disco mais pop e bem-humorado, retomando todo o swing funk e soul de “Manual Prático Para Festas, Bailes e Afins”.

“Olha ele ali!” É dessa forma que sou recebido por Ed Motta para uma conversa sobre Piquenique, o décimo disco da carreira do multi-instrumentista. Tendo uma refrescante piscina como vista e no melhor alto-astral, Ed Motta conta como foi dividir composições com sua esposa, sua ligação com os discos e a dificuldade em ser um “nerd”.

De onde veio o nome do disco? Ele marca algo em especial em sua carreira?
O nome Piquenique veio por acaso, logo depois que letramos o disco. Estava buscando algo ligado ao mundo real e por uma das músicas chamar Piquenique, decidimos por ela. Achei um ótimo nome, já que Piquenique representa certa ingenuidade e também passa uma ideia de celebração do disco. Às vezes muitos dos nomes vêm por acaso comigo, tenho certa dificuldade em achar um nome legal logo de cara.

Acho que esse é o disco mais pop da minha carreira. Ele contou com a contribuição de dois caras: Silveira e Mario Leo. Eles contribuíram no aspecto da sonoridade, adicionando e apresentando elementos diferentes, como os sons digitais que não sou tão familiarizado. O resultado foi um disco com uma sonoridade mais atual, “moderna”.

Quais as influências nesse CD?
Tem um pouco de tudo. É como se eu abrisse uma gaveta que estava fechada há muito tempo. Tem coisas que escuto desde sempre, mas não escuto tanto como quando tinha meus 15 ou 16 anos. Mesmo com essas influências “modernas”, Piquenique possui aquele aspecto de nostalgia. Meu estilo continua ali.

Você tem algum processo de composição em especial?
Pode parecer estranho, mas, na verdade, escuto mais música do que componho. Curto mais ouvir a dos outros do que fazer as minhas próprias músicas. (risos)

Normalmente gravo no piano e no violão quando bate uma ideia. Sento e parece que acontece um negócio, já sinto alguma coisa e começo a tocar, viajando na música. Também faço música em casa, sou bem caseiro. Infelizmente, grande parte das minhas músicas favoritas não fiz em casa, elas saíram de quarto de hotel ou passagens de som.

Tenho três gravadores, gravo cada tipo de coisa em cada gravador, depende da ideia que vier. Hoje em dia, uso também o iPhone para gravar algumas coisas enquanto viajo, é muito simples e prático.

Antigamente guardava todas as minhas músicas de cabeça, hoje em dia não é mais assim. É bem triste esquecer uma música que você gastou tanto tempo e dedicação para fazer e acabar esquecendo, chega a irritar também. Esquecer a própria música é como uma facada. Dá trabalho fazer música.

E essa ideia de usar narrativas de quadrinhos na composição do disco?
Sou fã de quadrinhos, sempre gostei de ler. Se der uma olhada no meu site novo, lá tem uma lista de alguns quadrinhos que gosto e sugiro a leitura. Até hoje, acho que a melhor coisa que Seattle fez não foi o grunge, mas os grandes quadrinistas que saíram de lá, como Chris Ware.

É a estreia da sua esposa, Edna Lopes, na composição de 11 das 12 letras. Como foi trabalhar com ela?
Acho que temos um convívio de interesses muito parecido e intenso. Não temos filhos, nem trabalhamos fora, ficamos todo tempo juntos. É como se fossemos irmãos siameses, ela sabe tudo que eu gosto e tudo que acho ridículo.

São 20 anos de casados e ela já ajudou em muita coisa na minha carreira, como desenhos, os palcos dos meus shows, etc. Todas as capas dos meus discos foram feitos por ela.
Tivemos a ideia da torta do encarte de Piquenique no caminho da edição de fotos. Pensamos em fazer algo como um piquenique pão duro, só uma tortinha. Engraçado que paramos para comprar uma torta real, já que parece meio sem graça aquelas tortas falsas apenas para ensaios, e no final das fotos acabamos comendo tudo.

Como foi trabalhar pela terceira vez com Rita Lee, agora em “Nefertiti”?
É muito bom. Foram três parcerias com a Rita, isso tudo graças ao padrinho Liminha, um grande cara. Foi através da música “Fora da Lei” que ele fez a gente se conhecer e gravar pela primeira vez.

Em “Nefertiti” fizemos tudo via e-mail, mandei a música e ela devolveu letrada alguns dias depois. Para falar a verdade, a gente nunca se encontrou para fazer música. Antigamente era feito por fax, agora, hoje em dia a gente se modernizou e já usou o e-mail, baita progresso.

Piquenique ainda conta com a participação da cantora Maria Rita. Foi difícil conciliar as agendas para as gravações?
Foi em junho que decidi convidar a Maria Rita para gravar uma música. Liguei numa quarta-feira e já no fim de semana estávamos em São Paulo gravando, foi bem rápido. Ela também foi muito gente boa, nós dois moramos no Rio de Janeiro e logo depois de combinado largamos tudo e fomos para São Paulo gravar as vozes.

Como é sua cobrança em relação à música?
Estou sempre me cobrando. Sou perfeccionista em todos os detalhes, chego a passar horas no estúdio cuidando de coisas mínimas. Me cobro mais como um cara de conceito. Gostaria de ser virtuoso, queria tocar igual grandes caras da música, como [John] Contraine. Infelizmente essa técnica não me foi dada.

Sempre usa minha musicalidade e o estudo. Nunca estudei música formalmente, fui autodidata desde que comecei. É um trabalho bem mais pesado desse jeito.

Como define sua música?
Gosto de todos os tipos de som, do mais difícil ao mais simples. Estou incrustado no Soul e Funk, mas claro que sou mais abrangente que isso. Já fiz de tudo um pouco. Não fico apenas numa coisa, se ficasse seria chato pra cacete. (risos)

Acho o pragmatismo dos rótulos muito engraçado, não tenho tanto problemas com isso. Por ser um colecionado, essa ideia de divisão de estios faz parte desse mundo. Ajuda a organizar.

Parece que quanto mais você conhece, mais você se afasta das pessoas. É como um funil, você vai meio que selecionando e encontra as pessoas que mais combinam com a maneira que você é.

É como ser um nerd, mas existem diferentes tipos deles. Tem o nerd que tudo que ele queria era ser um marombadão e pegar várias garotas, mas existem os que querem ser, e gostam de ser, aquele tipo “inside de culture”, que gosta de descobrir e conversar sobre tudo. Me considero um pouco nerd também.

O que você acha que falta na música hoje em dia?
Falta vergonha na cara (risos). A culpa não é de quem faz, mas de quem investe. O lixo não existiria se ninguém pagasse por ele. Falta arte na “arte”, na verdade falta um pouco em tudo.

É realmente difícil para quem faz música com alicerce técnico. Existem mais portas abertas para música ruim. As pessoas são meio que induzidas pelo mercado, elas ficaram anestesiadas há muitos anos.

Quanto pior é o artista, mais fácil de produzir. As bandas ou artistas, hoje em dia, já surgem com cabeça empresarial, sabem todas as regras do jogo e visam direto o mercado. É foda.


O que tem ouvido de melhor? E o pior?
Melhor coisa que tenho ouvido ultimamente é Orkestra Rumpilezz. Já a pior, meu Deus, tem tanta coisa que nem saberia qual dizer.

E sua relação com a crítica, melhorou?
Não posso reclamar da crítica, ela é sempre generosa comigo. Tenho que dizer que quando leio algo com teor raivoso, pessoal, frustrado, fico realmente puto. Mesmo assim, a crítica especializada é uma boa, também como a crítica dos fãs, ela serve como um termômetro, você descobre onde pode melhorar.

As redes sociais como o Twitter servem para isso. É um toma lá da cá, bateu levou. Que saudade dos anos 70 que éramos todos loucos e não ligávamos para nada.

Você possui uma grande coleção de discos de vinil. Qual é sua ligação com eles?
Nunca me desfiz dos meus vinis. Demorei certo tempo para mudar de uma mídia para outra, só fui comprar meu primeiro aparelho de CD em 1988. Nunca comprei CD até ver pela primeira vez o Álbum Branco dos Beatles em “miniatura”. Quando vi achei legal a ideia da miniatura de um disco.

Acredito que o vinil tem um som melhor tecnicamente, e se você souber procurar vinil, ele também consegue ser mais barato que o CD. Os sebos estão aí para isso, caçar. Eu normalmente compro discos por lotes, que muitas vezes sai mais barato. Os sites Ebay e Amazon sempre estão com algumas promoções bacanas e acabo levando muitos vinis por preços mínimos.

O vinil também traz uma coisa de tradição, um clima todo especial do cuidado. Por exemplo, há diferença no cuidado do vinil no Rio e em São Paulo, cada lugar tem seu jeito de tratar o vinil por conta de umidade, luminosidade, etc.

A volta do vinil é como uma moda, da mesma forma que a moda das tatuagens. Chega a me irritar um pouco ao ver que o vinil é curtido apenas por ser considerado “cool”. Por outro lado é muito bom para quem gosta: fica mais fácil de encontrar bom discos e também reedições. Agora estão se baseando nos anos 50 para o lançamento de reedições, querem deixar o vinil com uma qualidade superior.

Tomara que melhorem também a qualidade do vinil aqui, nunca achei muito boa. Estando na mão do Rafael [Ramos] (produtor da gravadora Deckdisc) tenho certeza que dá certo, ele é um ótimo cara para tomar conta disso.

Gostaria muito que Piquenique saísse em LP, mas não tem previsão até o momento.

Qual disco jamais compraria?
Acho que não existe um disco que jamais compraria. A gente compra de tudo e se surpreende com o que aparece nos sebos. Se aparecesse um disco da Perla gravado no Budokan compraria fácil. Comigo existe aquela ideia da coleção.

Tem algum disco vergonhoso na coleção?
Disco vergonhoso não tenho nenhum. Tenho mesmo discos engraçados, como a coleção completa de uma banda alemã chamada Gengis Khan. Todos meus discos tem um porque, nada é vergonhoso na minha coleção.


(Entrevista feita em Janeiro de 2010)